terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dona Flora e idade que mulher tem


23 de setembro - aniversário de Flora Camargo Munhoz da Rocha.
Ex-primeira dama do Paraná, escritora e responsável pela montagem, decoração e inauguração do Palácio Iguaçu, tema do livro que lancei em outubro do ano passado, homenageando também a ilustre paranaense.
Flora e Bento Munhoz da Rocha Netto construíram juntos um capítulo da História do Paraná.
Mulher de primeira grandeza, soube ser a primeira-dama de todos os paranaenses com alma, ajuda, cooperação e incentivo.

Parabéns dona Flora!!
98 anos lutando pelo Paraná!!


Em homenagem a Flora Camargo Munhoz da Rocha, dedico seu artigo, lido por ocasião de sua posse na Academia Paranaense de Letras, exatamente há um ano.

A idade que a mulher tem

A mulher tem a idade na qual se coloca. Ela faz a sua cabeça. Se consente uma situação de bloqueio, de dependência, de satélite; se aceita a monotonia, o tédio, o marasmo, como uma constante – ela tem 100 anos.
Mas, se ela permanece num ciclo de renovação constante, num vinculo com a evolução da vida; se afirma que entre sobreviver e viver há grande diferença; se for receptiva, vibrar com a música, com as crianças, com o canto, com a natureza, com o ser humano, com as emoções – ela tem 30 anos.
Se entrou no odioso progresso regressivo e o que era pleno se desarticulou, perdeu a agilidade, a alegria; sobretudo acentuou aquela angústia no olhar – ela tem 100 anos.
Mas, se ao contrário, brinda a vida todos os dias de cabeça aberta; se coloca um rouxinol cantando dentro do seu coração; se sorri e cativa; se for capaz de afetos de grande densidade sem regras, sem receita e faz suas próprias leis – ela tem 30 anos.
Se é rígida, austera, amarga consigo mesmo, esquiva, distante, desarmada para a luta; encurralada no passado, resignada a uma ruça solidão – ela tem 100 anos.
Porém, se virar as páginas do passado sem jamais dizer “no meu tempo” que seu tempo é agora e cheio de preciosidades; se crê que a saudade não é acorrentadora e sim um sentimento de uma beleza infinita é a evidência de que amamos e fomos amadas; se certificou que ser solitária confere um privilégio fantástico – o de uma liberdade de ação como nunca tivera – ela tem 30 anos.
Se ela se auto-desvaloriza se auto-hostiliza e permite que se instale a insegurança como um polvo asfixiando com mil tentáculos – ela tem 100 anos.
Se, entretanto, descobriu que o grande segredo é amar a si próprio crente de que merece o melhor porque tem obrigação de ser até o fim, e sabe que é preciso se amar para ser amada, se respeitar para ser respeitada, se valorizar para ser valorizada; se acredita que ela é o carro-chefe que confere a seu mundo relevos coloridos – ela tem 30 anos.
Se estacionou, entrou em recessão, arquivou esperanças, desativou motivações, engavetou projetos, desejos, se foge das emoções como quem foge de carga pesada e, desequilibrada em corda bamba, permanece a espera de auxílio, de ajuda, tem 100 anos.
Mas, se tem um leque de planos canalizando-lhes suas energias; se enfrenta desafios e paga para ver; se estiver convicta de que a inteligência e o talento atingem sua plenitude na maturidade; se estiver convicta que não se colhe experiência de repente, adquire-se gradativamente com o correr da violência, do observar, do concluir, do derrubar barreiras, do contornar obstáculos – ela tem 30 anos.
Se distanciou-se da comunicação e se mantém sucinta com um mínimo de frases curtas só se alongando para lamentações e que, enclausurada num viver ocioso sem estrutura, sem esquema, aliena-se por que ser bisavó é fim de carreira; se deixa que o envelhecimento se relacione com a data do nascimento, ocultando-se atrás de um mundo fulgido, antigo, reprimido – positivamente tem 100 anos.
Mas, se ela recusa hastear sua bandeira a meio pau e desfralda bem alto a bandeira branca de paz e amor, desfralda a bandeira verde de esperança e confiança – esta sim é uma mulher inteira. É uma mulher cinco estrelas.

1 comentários:

Lukinha disse...

Na foto, Flora ladeada pelo seu pai...